sábado, 12 de dezembro de 2009


Perdi-me dentro de mim

Pensamentos
Afetos
Sentimentos
Escoam por entre minhas mãos.
Não. Minto.
Os pensamentos devoram-me
Tonam-me ínfima.
Não me encontro mais
Distancia-me de forma voraz.
Preciso voltar. Não consigo.
Vivo realidade ou fantasia?
Desejo que seja ilusão
Já que com ela posso
transformar a verdade em arte.
Sandra G.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Questão de ponto de vista

Olhando-se de fora, dir-se-ia que era um sujeito patológico. Um caso sério. Já visto de dentro, parecia perfeitamente normal. Ele não via mal algum em desejar menininhas. Elas eram lindas, ainda guardavam a pureza. Não estavam sujas com pelos pubianos ou sangue menstrual. Seus peitos, ainda não aflorados, eram doces. Mas o que mais lhe encantava era a ingenuidade. Não sabiam o que era sexo. Então ele poderia fazer o que quisesse, passear pelos seus corpos, que seria apenas brincadeira.
Nunca pretendera fazer mal a nenhuma delas, afinal eram o que mais amava. Sua alma vivia tomada por este sentimento, visto pelos outros como doentio. Era apenas amor. Que mal havia em amar?
Ela estava sentada em um balanço, tinha uma boneca ao colo, a mãe ausentara-se por breves minutos. Calhara de justamente ele estar passando. “Deus é bom!”, pensou. A relatividade é algo absurdo. Então o criador fora bom com aquele sujeito e maligno com a menina e sua família? Onde Deus estava quando ele se aproximou?
Levou-a. Não precisou muito. Algumas balas, que sempre carregava, como jovens afoitos, desejosos da descoberta do sexo, que para ir à padaria da esquina estão munidos de camisinha. Sabe-se lá o que pode acontecer da casa até a compra do pão. Assim era ele, andava com balas e a casa repleta de brinquedos.
Vou poupar-lhes dos detalhes. Mas sabemos todos, o final. Resta responder por onde andava Deus que permitira tamanha monstruosidade. Seria a pequena dona de indizíveis pecados? Quem sabe pagara pelos pais? Ou ainda o que acontecera era um reflexo do pecado original? Onde estava escrito que deveria terminar assim?
Em frente ao júri, ele nada escutava, estava distante. Pensava apenas nelas, suas pequenas. A todos causava náuseas, queriam-no morto. Era desprezível. Um velho nojento e sórdido. Mas isso não importava, sabia que não fizera mal algum, apenas amara menininhas, os outros é que eram loucos.
A relatividade realmente é algo absurdo e Deus às vezes parece ter sumido do mapa.

Claudia Martins

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Vamos brincar de Deus?


Proposta de criação coletiva: Cada qual continue o texto como lhe aprouver

Reza a lenda que naquela tarde parada, estava Deus enfastiado, no bom português, estava de saco cheio da eternidade e de ficar sem fazer nada. Ele que já era perfeito, supremo, "onitudo", resolveu brincar de ser Deus e se pôs a criar.
Embora fosse soberano, em criação era iniciante. Alguns deslizes cometera. (Cláudia)
Deslizes que começaram pelo fato de ter criado antes o homem. Esse ser que nasceu para se sentir o melhor dos melhores mortais. (Roze)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O homem pós-moderno


"E sem dúvida o nosso tempo prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser... Ele considera que a ilusão é sagrada, e a verdade é profana. E mais: a seus olhos o sagrado aumenta à medida que a verdade decresce e a ilusão cresce, a tal ponto que, para ele, o cúmulo da ilusão fica sendo o cúmulo do sagrado."

Feuerbach

Postado por Roze (07/12)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O que é filosofia ?

Poderia começar pela definição clássica da etimologia da palavra, mas como nós humanos não nascemos humanos, nos humanizamos , a filosofia é um caminho que nos faz sermos mais humanos, ela é a guarda da razão e nos convida a penetrar na origem do Ser humano. Nos perguntar o que é o Homem? O que é a Vida? O que é a Política? E essas indagações nos levam ao pensar filosoficamente, nos proporcionando momentos de êxtase. prof Alvino

domingo, 6 de dezembro de 2009

"Não sei se nós que passamos pelo tempo ou é ele que passa por nós." Nair Franco, uma grande mulher

sábado, 5 de dezembro de 2009

O Intruso


Há um estranho em mim

-Como se adentrou?

-Não o sei.

É impossível sabê-lo.

Dizem que dois corpos não podem ocupar

Um mesmo lugar no espaço,

Mas ele está ali.

Tento dispersá-lo

Não consigo.

Diante do inexplicável

Procuro dissuadi-lo.

Tentativa frustrada.

Em vez disso ele tenta atrair-me

Fazendo-me usar asas.

Procuro, não as encontro

Assombro-me com tamanha

Insistência.

Por não me deixar persuadir

Leva-me a um abismo.

Deixando aqui algo incompleto de mim.

Desvencilho-me.

E meu reencontro comigo

Torna-se distante.

Acaso perco-me para encontrar-me?


Sandra

Folha

Sou a folha "resseca" e inútil
Parada à beira do abismo
De onde emergem todos os monstros
Sem rumo, sem proteção, sem medos, sem sorte.
A folha só.

Roze

Passamentos


Venha sentar comigo à margem do rio
Observemos o seu fluir
A água passa

E a vida também

A vida é engolida pelo tempo

Absurdo tempo estanque e fluido.

Veja como o rio corre

E a chama da vela num manso queimar

Apaga-se

Sinta como o outono se aproxima
Acarinha nossos cabelos

E sussurra eternidades

Ou passamento.


Olhe como é belo o branco lírio que vive doutro lado da margem

Ele também é passamento.

Gárgula Vergel

A coisa

Nauseabunda, caminho pela calçada vazia
Já não sei se sou tocada pelo vazio de fora ou apenas ecoa o de dentro
Tudo se mistura
Tudo é uma coisa só
Apenas vazio
Nada
Vácuo
Abismo
Seria mais fácil o não-ser.

Quem é essa que vê
Percebe e se faz perceber
Por algo que chama de si mesmo
O que é isso que caminha
E perscruta a existência e o próprio caminhar?

“Então sobe-me a náusea”
Este sabor acre me toma a boca e o que sou
Ou penso ser
Já não sei se sou tocada pelo vazio de fora ou apenas ecoa o de dentro.

Gárgula Vergel

Alteridade: eu e o outro








Assim como o homem é capaz de cometer barbáries inacreditáveis, algumas até inauditas, também pode ter atos de imensa nobreza, de esquecimento de si, de pura alteridade. Aung San Suu Kyi, representante da esquerda birmanesa, na década de 80, quando impedida pelo exército de participar de uma reunião, não vacilou. Dirigiu-se lentamente para a frente de todos os rifles, então o capitão ordenou “Fogo”, entretanto os soldados ficaram imobilizados diante daquele símbolo vivo de luta. Seu superior gritou novamente com mais potência e louca ira “Eu disse FOGO!” Mesmo assim nenhum deles teve coragem de atirar, eram dezenas de rifles apontados, porém nem sequer uma bala fora lançada e Aung San atravessou a barreira de armas e homens hipnotizados pela sua força. Neste momento ela tornara-se grande porque lutava não por si, mas pelo outro, um “rosto” que nem mesmo conhecia, pois era a humanidade.
Nos idos anos 60, um casal, Neusa e Simões, cedeu seu sítio para um encontro de jovens da UNE. Descobertos, foram presos, juntamente com duas filhas pequenas. Sofreram constantes sessões de tortura e humilhações. Uma noite, as meninas, separadas de sua mãe, choravam muito, pois ouviam os gritos estridentes do pai, então o capitão que torturava Simões ordenou que ela as fizesse parar ou a violaria com o cacetete diante crianças.
Dessas terríveis reminiscências, ela traz uma que lhe causa comoção.
Em frente a sua cela estava um rapaz muito ferido, com a barriga aberta, pois havia sido baleado, entretanto mesmo assim os militares o torturavam monstruosamente. Ele, contudo, após as torturas, ao invés de mergulhar em suas próprias dores, remoer as suas feridas, dirigiu-se até as grades e demonstrou uma imensa preocupação com ela e as meninas, queria saber se os guardas haviam lhes feito algo,claramente sentia-se mais atingido, afetado pela situação delas do que pela sua. Um homem que experimentando os maiores tormentos físicos e morais, mesmo assim conseguiu ocupar-se menos de si e ver a perspectiva do outro. Seu nome: Fernando Gabeira.
Atos assim de alteridade fazem com que o homem saia de seu eixo, deixe o seu ego, tire o foco do seu eu, de seu centro e veja-se no outro, sinta-se ele , compartilhe, doe. Atos puros de alteridade o transpõem acima de sua pequenez e fronteiras, e tem o poder de cobri-lo com o véu de uma dignidade maior e mais humana que enternece até as pedras.

Claudia Carla Martins


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Vazio de nós


Cheios de vazio todos os dias, procuramos logo uma maneira de preencher o espaço cá dentro com algo que não nos pertence e, que, por consequência não ficará muito tempo.
Assim se dá no momento exato em que pensamos numa pessoa, mais do que em nós mesmos. Se dá naquele fatídico instante em que acredita-se não conseguir mais caminhar sozinho, e que a única pessoa no mundo capaz de seguir ao seu lado é aquela a quem destilamos todos os nossos venenos de paixão. Queremos trazê-la para o nosso íntimo, protegê-la de qualquer ameaça, mas não cabe. Dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço. Eventualmente o outro corpo também se esquiva, querendo libertar-se das amarras do sentimento alheio.
Mas a vida não sabe esperar nada disso. Nem amarras, nem desejo de estar-se , nem escravidão que se queira. Não há segunda chance para ela. A vida não é doce com aquele que a perde um pouquinho todo dia, por não acreditar-se autossuficiente.
Resta-nos então decifrar o enigma de nós mesmos, e saber que "estamos sós e sem desculpas".
Dancemos um tango ao estilo Bandeira, portanto.
Roze